domingo, 28 de novembro de 2010

PROSAPOPEIA, POESIA, CARTAS

                                                                                         (Foto: Pedro Rossi - Londres)
TARDANÇA

Por Fábio Brito


Certa vez, ouvi isto: “Espera-se muito neste país”. Espera-se mesmo! Por tudo e em todos os lugares. E quem espera fica, não raro, aborrecido, não é mesmo? Aborrecido é pouco. Há pessoas que vão além do aborrecimento: chegam às brigas, aos xingamentos, às gritarias. Sem razão? Talvez não.
Já repararam, por exemplo, que, quando algo (ou alguém) entra no circuito do consumo, o tempo de espera aumenta consideravelmente? Nessa lista, estão restaurantes, lojas e até profissionais de saúde, como médicos. É... os médicos, de uns tempos ‘pra’ cá, também fazem parte disso que classifico como “circuito do consumo”. Quando eles estão “na moda”, agendar uma consulta é tarefa das mais difíceis. Só com muita (mas muita mesmo!) antecedência. Porque estão “na moda”, para consultá-los, as pessoas suportam esperar uma encarnação.  
Restaurante também não fica de fora desse rolo. Nos grandes centros, principalmente, se algum deles ‘cair nas graças’ do povo que se diz chique, cuidado! Haverá filas. Se, em determinados dias, todas as mesas estiverem ocupadas, há pessoas que, mesmo assim, suportarão esperar um bom tempo até que alguma seja desocupada. Nada chique isso, não? Muitos não pensam assim. E ficam lá, na fila, com cara de nada e fazendo vento.
Pior do que esperar o dia da consulta ou a mesa no restaurante talvez seja esperar a boa vontade das pessoas que prestarão o serviço a quem espera. O constrangimento, que deveria ser de quem faz alguém esperar, acaba sendo de quem será atendido. No entanto, há lados delicados – e pouco compreendidos - que envolvem essa questão da espera em certos lugares. Em algumas repartições, por exemplo, a culpa (chamemos assim) pela espera não deveria ser atribuída ao funcionário/atendente, mas à instituição. Difícil entender isso? Não! Basta comparar o número de pessoas que atendem com o das que precisam ser atendidas. É brincadeira!
A situação se complica, então, quando, nesse tipo de situação, a ira dos que esperam (e não lhes tiro a razão) recai sobre o atendente, que, em muitos casos, também é vítima (só não o é quando faz ‘corpo mole’ e finge que trabalha). Vítima de quê? Simples também. De um sistema que visa tão somente ao lucro, em detrimento, é claro, da paciência e da saúde alheias. Ninguém merece (ninguém mesmo!) ser atendido em instituições que deveriam ter, no mínimo, o dobro do número de empregados que têm.
Nossa tradição judaico-cristã nos ensinou a paciência... porque dos pacientes será o céu. Que céu? O dos conformados, é óbvio! O dos que não gritam e reivindicam seus direitos. Desconfio de que o que chamam de paciência é, aqui, sinônimo de resignação e apatia. Muita ‘coisa’ torta reina e impera por aí porque é com os conformados que se constroem mundos. E não são mundos de heróis, mas de gente passiva (não confundir com pacífica) e alienada. E gente passiva, como sabemos, acostuma-se a tudo, principalmente a viver em um mundo errado. Pior de tudo: acostuma-se a achar que o errado é o certo e vice-versa (sem maniqueísmo!). Não grita, não protesta. Resigna-se. Protestemos, então, mas...

Cá entre nós: e por falar em protesto, continuo rezando pela cartilha de Cazuza, nosso talentoso poeta, que, em parceria com Laura Finochiaro, presenteou-nos com “Tudo é amor”: “(...) Mesmo se for pra transformar / Num inferno um céu conformista / Mesmo se for pra guerrear / Escolha as armas mais bonitas (...)”. Pois é, é vital que não nos conformemos, mas com delicadeza, com fineza, com ‘armas bonitas’.
Não há como negar: esperar é um desrespeito. Esperar sentindo dor, então, é desesperador. A revolta, a raiva, os gritos... tudo é mais do que aceitável quando há dor envolvida. Neste instante mesmo, num pronto-socorro de hospital, escuto os brados de uma moça, grávida, que espera há muitas horas para ser atendida. Desrespeito é pouco!
Quando esperamos, alguma vantagem, mesmo que remota, deve existir, não deve? Agora, por exemplo, enquanto espero que todo o líquido de um frasco de soro chegue ao fim, escrevo este texto. Pelo menos por isso (e só por isso!) está valendo o tempo de espera. Talvez não, pois estou com fome. Muita fome!  

 

CARTAS, POESIA, PROSAPOPEIA


De  Madame du Deffand a  Voltaire

 Paris, 28 de novembro de 1773.


      Sois o mais surpreendente dos mortais, Mas por que mortal? Jamais morrereis. Tendes apenas trinta anos; tereis para sempre essa idade.
       Vossa Tactique encantou-me; provocou esse efeito em todos; existem mil cópias dela; e a primeira coisa que todos dizem é: Lestes a Tática do senhor Voltaire? Haverá algo mais encantador?
       Encontrei uma única pessoa (e essa pessoa é um belíssimo espírito, íntima do senhor Thomas)que teme uma ofensa ao rei da Prússia. Tal coisa não seria inefável?
       Devo a vós infinitos agradecimentos por vossa atenção; continuai; enviai-me todos os vossos pedregulhos; são mais preciosos do que todos os vossos pedregulhos; são mais preciosos do que todos os diamantes que se recolheu nos tempos atuais. Sim, protesto, meu caro Voltaire, admiro apenas a vós, e não posso admirar a outros.
         Disse a madame de La Vallière que me faláveis dela, que ainda gostáveis dela:losonjeou-se além de qualquer expressão; encarregou-me de vos dizer isso e que possui dois de vossos bustos sobre sua lareira: compra todos os que encontra.
Quando me escreverdes, que haja um artigo para ela que eu lhe possa mostrar; ela vai melhor. O que pensais da morte do senhor Chauvelin? É uma perda para todos; nossos filósofos diriam para a a humanidade.


Marie de Vichy-Chamron, Marquesa du Deffand (1679-1780), foi uma tagarela sem rival, e uma escritora de cartas que levou a Sainte-Beuve declarar: “Juntamente com Voltaire, é, na prosa, o estilo mais clássico e mais puro dessa época.” (Livre tradução de:)







POESIA, CARTAS, PROSAPOPEIA

                                                                                        Casinha de Arame - Ana Moraes

MINHA CASA ME GUARDA COMO UM ABRAÇO 
                                                                                Viviane Mosé
                                                                                                                      
 É preciso fritar o arroz bastante
Antes de colocar água fervendo,
E não pode mexer jamais depois de a água ser posta,
O alho deve fritar no óleo junto com o arroz.

Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas,
Faxina, por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo
Que não sobra um canto que não
Tenha sido tocado por minhas mãos.
Depois vou sujando. Com muito gosto,
Deixo peças na sala e louças sujas na pia,
Não na mesma hora, mas um pouco bastante depois
Volto limpando. Assim me faço.
Nos objetos que me acompanham.

Gosto de andar nas ruas e comprar as coisas
Que vão se arrumando em torno de mim,
Eu tenho muitas coisas,
Quero dizer, tenho muitas camadas.
Uma camada de livros, outra de sapatos,
Tem uma camada de plantas. E toalhas de rosto,
Tenho camadas de cosméticos e adereços,
Uma camada de nomes e coisas que vejo,
Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo.
Um corpo que me sustenta
Quando o meu próprio me falta.

Cadeiras são meus ossos,
Sapatos são meus braços,
Torneiras em meus poros,
Paredes como roupas de inverno,
(Quando toca música em minha casa sai
do umbigo)

Descanso recostado nas paredes de casa
Que me guardam como um abraço,
Me abraço quando me derramo na sala,
E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.

Tudo em minha casa tem existência,
Todas as coisas significo. Com os olhos,
Ou com as mãos, Minha casa tem silêncios
Que às vezes ouço, Em meu corpo
Tem silêncios maiores ainda,
Que às vezes ouço, E faço poemas,
Faço poemas dos silêncios que ouço.

Ando com mania de lustra-móveis e ceras líquidas,
Olho um por um nas prateleiras, Sinto a textura e o cheiro,
Espalhando um pouco entre os dedos. Prefiro os de textura fina
E que cheiram a jasmim (gosto mais do aroma floral
mas a palavra jasmim é tão bonita).
Levo todos pra casa e vou espalhando. Primeiro o assoalho,
Considero todos os cantos. Depois os móveis
Com as mãos vou tateando. Um por um.
Em reverência.
Ao que me sustenta quando em desamparo
As casas me sustentam em mim. Por isso as quero em detalhe,
Bem cuidadas e cheias de espaços onde novas coisas se deitam.
Costumo encontrar tesouros escondidos
nas dobras das colchas.
E nas louças sujas na pia. Tenho muitas janelas,
Que é por onde o sol e a chuva me vistam,
O vento aqui também é muito forte,
Às vezes derruba tudo e eu gosto,
Mas aqui também cabem pessoas,
Tem sempre lugar pra pessoas em mim.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

URBE II

Isola D'Elba -Toscana - Itália (Foto: Orietta Borgia)
SÁBADO NA ALDEIA
                                              
                                     Orietta Borgia

Um velho sentado à porta,
como viajante cansado
à espera de uma estação
que não chegará nunca.
Dos olhos fechados
que o tempo gastou,
(ou foi o vento?)
a vida goteja lenta.
Lembranças derretidas:
O tédio pendurado nas janelas.
A conversa das meninas antigas.
Uma sensação parada.
Uma dor polida.
É sábado na aldeia,
na urbe olor de rosas e violas,
talvez, mas sem espera.

VIRTUaliDES

Desejo tudo concreto.
Concreta, concluo.
Sem ressaltar o que nunca alcanço,
incubo, gero, gesto, conduzo, crio.
Sem saber se ajo certo vivo.
Cruzes, credo, que desafio.
Ao acaso, com descaso, descoso a trama.
Que descalabro, de novo líbera.
Lembro-me bem, salitre, arbitre,
o passaredo atrapalho.
É minha virtude.
Me imiscuo enquanto possa e exista.
Paráfrase, exorto palavras raras:
infância, carícia, araras, amor,
jardins, tolerância, trabalho, 
sossego, presença. 
Quando as verdadeiramente fáceis são:
demagogia, prevaricar, resvaladiço, atrofia, abandono,
corromper, fobias e tal, e tal, e tal... 




quarta-feira, 24 de novembro de 2010

APRESENTANDO MEU AMIGO

     
                      LA FIRA DE BELLCAIRE - Encants Vells - Barcelona
             
         Quando resolvi  criar o P&P convidei o Fábio para me fazer companhia e que me respondeu em "cima da bucha": Com você vou até pro inferno! Mal sabia ele que ao invés de me deixar mais confiante, aumentava a minha responsabilidade frente a ele e à ideia do P&P.
         O Fábio é um homem das Letras. Professor, entusiasta da arte da escrita desperta, não apenas nos alunos, em todos, o prazer pela leitura. Com sua sensibilidade e como se lesse meus pensamentos, assistisse aos meus momentos e advinhasse o que  eu precisasse ouvir/ler, sempre me presenteia com uma poesia, um novo título, uma música, ou  uma letra de música. Esses muitos presentes, não têm preço, têm marca, a que nos tornou parceiros, a marca de nossa amizade.
           Nada de inferno. Quando o Fábio nos traz suas colaborações vamos direto ao paraíso.
       
É assim que ele se apresenta e não poderia ser diferente.


"(...) Multipliquei-me, para me sentir
 Para me sentir, precisei sentir tudo,
 Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
 Despi-me, entreguei-me,
 E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente."(...)"
           

(Fragmento de 'Passagem das horas', de Álvaro de Campos, heterônimo e Fernando Pessoa)

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 "(...) Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeirmente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. (...) É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - 

e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, 
e então o castigo é amar um mundo que não é ele. (...)"

          (Fragmento de 'Perdoando Deus', de Clarice Lispector)

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Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam.

Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra em pedra ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosas!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes!  - aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

("Desenho" de Cecília Meireles)
                                   

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Hoje, o presente é seu.