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domingo, 12 de fevereiro de 2012

EMBALADO "PRA" PRESENTE *


                                            A Lavadeira - Toulouse Lautrec- 1888










 



DOLORES
                                                                   (Adélia Prado)

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrecido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentaram os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.

* Fábio, obrigada por todos os presentes. Chegaram ontem mesmo, beijos.




terça-feira, 28 de dezembro de 2010

PRESENTE DE REIS



DEDICATÓRIA



Sem drama ou pranto
te canto um canto.
Não importa se é uma rumba mexida,
um blue arrastado, uma valsa rodada.
A Berceuse de Brahms eu até ousaria,
E aquela ciranda que me deu Lia, um dia.
Se é um frevo rasgado, no Largo do Amparo,
ou um samba suado, em qualquer avenida.










domingo, 28 de novembro de 2010

CARTAS, POESIA, PROSAPOPEIA


De  Madame du Deffand a  Voltaire

 Paris, 28 de novembro de 1773.


      Sois o mais surpreendente dos mortais, Mas por que mortal? Jamais morrereis. Tendes apenas trinta anos; tereis para sempre essa idade.
       Vossa Tactique encantou-me; provocou esse efeito em todos; existem mil cópias dela; e a primeira coisa que todos dizem é: Lestes a Tática do senhor Voltaire? Haverá algo mais encantador?
       Encontrei uma única pessoa (e essa pessoa é um belíssimo espírito, íntima do senhor Thomas)que teme uma ofensa ao rei da Prússia. Tal coisa não seria inefável?
       Devo a vós infinitos agradecimentos por vossa atenção; continuai; enviai-me todos os vossos pedregulhos; são mais preciosos do que todos os vossos pedregulhos; são mais preciosos do que todos os diamantes que se recolheu nos tempos atuais. Sim, protesto, meu caro Voltaire, admiro apenas a vós, e não posso admirar a outros.
         Disse a madame de La Vallière que me faláveis dela, que ainda gostáveis dela:losonjeou-se além de qualquer expressão; encarregou-me de vos dizer isso e que possui dois de vossos bustos sobre sua lareira: compra todos os que encontra.
Quando me escreverdes, que haja um artigo para ela que eu lhe possa mostrar; ela vai melhor. O que pensais da morte do senhor Chauvelin? É uma perda para todos; nossos filósofos diriam para a a humanidade.


Marie de Vichy-Chamron, Marquesa du Deffand (1679-1780), foi uma tagarela sem rival, e uma escritora de cartas que levou a Sainte-Beuve declarar: “Juntamente com Voltaire, é, na prosa, o estilo mais clássico e mais puro dessa época.” (Livre tradução de:)







quarta-feira, 24 de novembro de 2010

APRESENTANDO MEU AMIGO

     
                      LA FIRA DE BELLCAIRE - Encants Vells - Barcelona
             
         Quando resolvi  criar o P&P convidei o Fábio para me fazer companhia e que me respondeu em "cima da bucha": Com você vou até pro inferno! Mal sabia ele que ao invés de me deixar mais confiante, aumentava a minha responsabilidade frente a ele e à ideia do P&P.
         O Fábio é um homem das Letras. Professor, entusiasta da arte da escrita desperta, não apenas nos alunos, em todos, o prazer pela leitura. Com sua sensibilidade e como se lesse meus pensamentos, assistisse aos meus momentos e advinhasse o que  eu precisasse ouvir/ler, sempre me presenteia com uma poesia, um novo título, uma música, ou  uma letra de música. Esses muitos presentes, não têm preço, têm marca, a que nos tornou parceiros, a marca de nossa amizade.
           Nada de inferno. Quando o Fábio nos traz suas colaborações vamos direto ao paraíso.
       
É assim que ele se apresenta e não poderia ser diferente.


"(...) Multipliquei-me, para me sentir
 Para me sentir, precisei sentir tudo,
 Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
 Despi-me, entreguei-me,
 E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente."(...)"
           

(Fragmento de 'Passagem das horas', de Álvaro de Campos, heterônimo e Fernando Pessoa)

.............

 "(...) Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeirmente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. (...) É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - 

e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, 
e então o castigo é amar um mundo que não é ele. (...)"

          (Fragmento de 'Perdoando Deus', de Clarice Lispector)

.........

Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam.

Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra em pedra ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosas!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes!  - aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

("Desenho" de Cecília Meireles)
                                   

..................

Hoje, o presente é seu.