domingo, 12 de fevereiro de 2012

PLANO CARTESIANO


                           (The Mill - Piet Mondrian 1908)


ESTREITEZAS

Orientar o eixo que insistentemente aparta
o real chão do imaginário sonho.
Aproximar hemisférios meridianamente estreitos,
sinalizar a pista na exata direção.
Desafiar o tempo e as doze casas do zodíaco,
os sete mares reduzí-los a quatro luas.



EMBALADO "PRA" PRESENTE *


                                            A Lavadeira - Toulouse Lautrec- 1888










 



DOLORES
                                                                   (Adélia Prado)

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrecido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentaram os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.

* Fábio, obrigada por todos os presentes. Chegaram ontem mesmo, beijos.




sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

R E C A D O


                                                                                    (divulgação)

PARA: Nara Leão e Elis Regina (que fizeram aniversário de vida e de morte)

Não se pode viver o êxtase sem morrer.
Separaram-se por um motivo fútil, quase inventado.
Não queriam morrer de paixão.


 DE: Clarice Lispector

  



AGORA EU VOU PROSSEGUIR (quero ver quem vai voltar)

                                  Ciranda Espiral . R. KIOKO FERRETI


Meu povo, preste atenção
Na roda que eu te fiz
Quero mostrar a quem vem
Aquilo que o povo diz
Posso falar, pois eu sei
Eu tiro os outros por mim
Quando almoço, não janto
E quando canto é assim

Agora vou divertir
Agora vou começar
Quero ver quem vai sair
Quero ver quem vai ficar
Não é obrigado a me ouvir
Quem não quiser escutar

Quem tem dinheiro no mundo
Quanto mais tem, quer ganhar
E a gente que não tem nada
Fica pior do que está
Seu moço, tenha vergonha
Acabe a descaração
Deixe o dinheiro do pobre
E roube outro ladrão

Agora vou divertir
Agora vou prosseguir
Quero ver quem vai ficar
Quero ver quem vai sair
Não é obrigado a escutar
Quem não quiser me ouvir

Se morre o rico e o pobre
Enterre o rico e eu
Quero ver quem que separa
O pó do rico do meu
Se lá embaixo há igualdade
Aqui em cima há de haver
Quem quer ser mais do que é
Um dia há de sofrer

Agora vou divertir
Agora vou prosseguir
Quero ver quem vai ficar
Quero ver quem vai sair
Não é obrigado a escutar
Quem não quiser me ouvir

Seu moço, tenha cuidado
Com sua exploração
Se não lhe dou de presente
A sua cova no chão
Quero ver quem vai dizer
Quero ver quem vai mentir
Quero ver quem vai negar
Aquilo que eu disse aqui

Agora vou divertir
Agora vou terminar
Quero ver quem vai sair
Quero ver quem vai ficar
Não é obrigado a me ouvir
Quem não quiser escutar

Agora vou terminar
Agora vou discorrer
Quem sabe tudo e diz logo
Fica sem nada a dizer
Quero ver quem vai voltar
Quero ver quem vai fugir
Quero ver quem vai ficar
Quero ver quem vai trair

Por isso eu fecho essa roda
A roda que eu te fiz
A roda que é do povo
Onde se diz o que diz

Gilberto Gil - Roda
Louvação" (1967)

domingo, 6 de novembro de 2011

3 de Novembro - MEMÓRIAS, LEMBRANÇAS E PROSAPOPEIA

         Centro Histórico de João Pessoa-PB  (Foto: Pedro Rossi)

 O ETERNO BRILHO DE UMA MEMÓRIA 
SEM LEMBRANÇAS

 (Por Pedro Rossi)


Quando planejamos viagens, é comum acrescentarmos ao roteiro passeios a lugares históricos. Um dos motivos é porque sabemos que a experiência de sentir de perto cada pedra, ali assentada, conta muito mais da vida de uma cidade do que qualquer livro de História. Absorvemos, de forma mais rápida, uma cultura diferente da nossa. Aí reside uma das principais e mais antigas inquietudes do ser humano: a busca pelo conhecimento. Entretanto, se não sabemos nossa história, dificilmente teremos como preservar a memória e, certamente, ninguém jamais saberá da nossa existência.
A Europa possui uma tradição consolidada a respeito da preservação da memória. Ainda que não seja tão antiga, e nisso podemos nos remeter ao século XIX, a preocupação com a proteção do Patrimônio Cultural naqueles países é levada a sério. A população, de uma maneira geral, tem a consciência de abrir portas e gerar caminhos para o desenvolvimento econômico por meio do turismo. Sabem, também, que suas antigas muralhas, monumentos e coleções artísticas possuem um significado incomensurável, pois fazem parte do patrimônio coletivo de sua nação. Nele reside a memória de seus antepassados.
O destino turístico escolhido pela maioria das pessoas que procuram enriquecimento cultural é a França. Não por menos. O turista pode vivenciar um dos mais antigos aglomerados de monumentos arquitetônicos de toda a Europa.  Sem contar com o acervo dos museus, que reúnem obras de todas as épocas históricas e de todas as partes do mundo. Não podemos esquecer a imagem simbolizada a partir da produção intelectual das primeiras décadas do século XX, quando, em Paris, reinava um cenário cultural efervescente. É a reunião de uma herança patrimonial sem tamanho! No entanto, devemos levar em consideração que essa França existe, tão somente, porque nela vive o que há em grande parte dos países europeus: uma sociedade que valoriza a cultura e que, preservando a memória e legando sua história, faz do Patrimônio Cultural o seu principal cartão de visitas.
No Brasil, o costume de se preservar a memória é mais recente. Somos um país cuja organização civil é relativamente nova e ainda existe um mito de que a nossa história não é rica o suficiente. O que é um grande erro! Nosso legado cultural vem desde muito antes do “descobrimento”. Além do mais, a diversidade étnica do povo brasileiro é a maior qualidade que se pode ter para a profusão de uma cultura tão plural. Nosso Patrimônio Cultural Imaterial – festejos, expressões artísticas, manifestações religiosas, técnicas gastronômicas – é tão (ou mais) rico em referencias quanto qualquer país do Velho Mundo. Além do vasto legado patrimonial edificado que o Brasil possui em seus centros, precisamos observar nossos costumes e tradições. Tão diversos nas formas de se expressar e, ao mesmo tempo, únicos no mundo, também são eles parte da nossa cultura. É importante que sejam preservados tanto quanto um monumento arquitetônico ou um Centro Histórico de uma cidade.
Ainda assim, por aqui, as leis protecionistas são, de certa forma, uma novidade. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) foi criado há pouco mais de setenta anos. Os paraibanos estão à frente da preservação do seu Patrimônio Cultural desde o começo da década de 1970. Agora em 2011, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP) completa quarenta anos de atividades. Poucos sabem, mas o Centro Histórico da Cidade de João Pessoa é tombado como Patrimônio Cultural, em nível nacional e estadual, e possui uma das trajetórias de urbanização mais antigas do Brasil. O Centro Histórico de Campina Grande também é protegido pelo IPHAEP e detêm um significativo acervo arquitetônico Art Déco.
No entanto, apesar da existência dos órgãos que controlam legalmente o Patrimônio Cultural, somente a sociedade, de fato, poderá dizer o que é importante e o que é digno de se preservar. Só protegemos aquilo que reconhecemos como nosso. Apenas dizemos que algo é memorável quando nos identificamos na trajetória da história desse objeto. É de extrema importância que sejamos conscientes de que o passado não está morto; ele vive em nós e permanecerá no futuro. Um futuro que, juntos, estamos ajudando a construir.
Devemos procurar conhecer nossa cultura, valorizar o que fazemos e investir no reconhecimento de nossos costumes. Somente assim, por meio de um processe de (re)descobrimento, é que seremos fiéis a nossa própria história. Seremos dignos de nossa memória. Do contrário, estaremos fadados a viver do brilho eterno de uma memória sem lembranças.

         

domingo, 16 de outubro de 2011

UNI DUNI TÊ

                                                      Tables and chairs.. EricTenin


ACHADOS E PERDIDOS

Um bar na rua. Sol.
Releio procurando achar
qualquer palavra entre linhas.
Há uma cadeira livre.
Nela acomodo as outras frases
Chega o garçon: - Senhora...
- Um sorvete.
(corretamente respondo pelo paladar)
Depois, o saboreio tranquilamente
pelos olhos arregalados,
a grandes bicadas como fariam os pelicanos.
É tudo tão normal que alguém se aproxima,
educadamente pergunta:
- Senhora, que leitura lhe acompanha o sorvete?
- Achados de um amigo perdido.