domingo, 16 de outubro de 2011

UNI DUNI TÊ

                                                      Tables and chairs.. EricTenin


ACHADOS E PERDIDOS

Um bar na rua. Sol.
Releio procurando achar
qualquer palavra entre linhas.
Há uma cadeira livre.
Nela acomodo as outras frases
Chega o garçon: - Senhora...
- Um sorvete.
(corretamente respondo pelo paladar)
Depois, o saboreio tranquilamente
pelos olhos arregalados,
a grandes bicadas como fariam os pelicanos.
É tudo tão normal que alguém se aproxima,
educadamente pergunta:
- Senhora, que leitura lhe acompanha o sorvete?
- Achados de um amigo perdido.



segunda-feira, 12 de setembro de 2011

NOSSA E NOVA A CADA DIA

                                                      Foto: Eric Tenin
Poesia e Prosapopeia mostrou sua cara um dia depois do previsto, mas parece que cumpre sua sina chegando novamente atrasado para comemorar seu primeiro ano de existência. Meio atrapalhado, é verdade, mas resistindo. 
Deixa 'pra' lá, é o de menos, eu já não serei a mesma de antes.
 A poesia será sempre nova a cada dia.
Para comemorar, uma foto das vésperas do vinho pelas lentes de Eric Tenin,
a poesia sem dia e nem hora de Cecília Meireles, letra e música de Mílton Nascimento nas vozes do Cobra Coral.
'Tá' bom ou quer mais?


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes,
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta,
nem o céu de sempre!


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

TAO OU QUAL?

                                                       sticks- emmanuelle moureau



D
         E  s
                   EQUI
                            L
                                      Í
                                      BRIO 

você que vê minha tristeza impassível

e com um pé atrás se equilibra

se esconde aonde?

como é longe o seu dentro de si

me fala uma frase com o seu nome

me olha nos olhos

escancara esse homem

que perda de tempo esse senso

esse freio na boca, esse selo, esse zelo

esse corpo atracado

seu andar agitado

você faz que não vê minha alegria

isso é impossível...

quando tento um sorriso e desato esse nó

quando solto as amarras

de sua âncora enterrada.


"Parece que Bebe" - Itamar Assumpção e a Banda Isca de Polícia

domingo, 31 de julho de 2011

CIRANDAR

Dança de Roda, 1936 (António Pedro- Museu do Chiado-PT)

DANÇA DE RODA

Deixei de escrever o óbvio
Dedico-me a pensar no ócio
Emudeço os pensamentos
Adio esperados momentos
Releio páginas em branco
Não recito verso rimado
Nem discurso agoniado
Não deixo nenhum recado

Farei da matraca a voz
No berra-boi outro som
Com o reco-reco ensaio
coco de roda, ciranda,
balaio, meu bem balaio.
Un, deux, trois, pernas pro ar
viola de gamba, meu pinho
ainda sei pontear.
Na dança a palavra cala
sem assunto a voz se atrapalha
Um, dois, três, é só rodar e bailar. 






O vídeo, Dance me to the end of love - Leonard Cohen, foi um presente enviado por Enéas M.F.
Continuemos a dançar.


domingo, 26 de junho de 2011

UM DEDO SUJO DE TINTA


"DO BERÇO À COVA"




                   Foto:UOL Notícias (Google Imagens)


Algumas mulheres são transformadas em ícones, não porque suas fotos expõem a pele esticada e bronzeada e corpos torneados em trajes mínimos. As mulheres sobre as quais vou comentar tornaram-se ícones por outras razões. Podem ser as refugiadas de guerra que surgem em capas de revistas (Nathional Geographic, 25 anos atrás ), ou em mostras como a do premiado fotógrafo Emilio Morinatti sobre ‘Violência de gênero no Paquistão" quando expôs imagens de mulheres vitimadas pela violência doméstica.
Este post não traz nenhum um furo de reportagem e nada inédito, ao contrário, mostra  cicatrizes na moral e no físico que nos envergonham e assombram a cada imagem, antes mesmo de ler o pavor, a tristeza e o desamparo estampados nos rostos dessas mulheres.
O que me levou ao assunto foi um fato até então desconhecido para mim, (com bastante demora), descoberto por casualidade numa revista esquecida, da mesma forma como algumas vezes nos esquecem, nas cadeiras das salas de espera.
O texto é da jornalista Elizabeth Rubin, correspondente do New York Times, sob o título de Rebelião Velada e fala sobre o que “(...) sofrem as mulheres afegãs sob as leis do tribalismo, da pobreza e da guerra (...)”.
O trecho do artigo, afinado com o perfil do P&P, fala da descoberta de uma coleção de landays, em uma livraria de Cabul, os “curtinhos”, conhecidos poemas de dois versos recitados pelos pashtuns, habitantes do noroeste do Afeganistão, de vida honorável organizada em torno de princípios edificantes como hospitalidade, abrigo ou asilo e justiça, mas este não dissociado da vingança. Os “curtinhos” são recitados por ocasião das festas de casamento e outros encontros quando se reúnem ao redor do poço das aldeias.
O livro com a coleção de landays e organizado por Sayd Bahodine Majrouh, poeta afegão exilado e morto no Paquistão, em 1988, leva o sugestivo nome de Suicídio e Canção. Para o poeta, sobre a mulher pashtum pesa sob suas burkas uma sina de miséria e medo desde o “berço à cova”.
Por meio dos landays as mulheres afegãs fazem ecoar seu “grito de separação”, pode-se conhecer a forma que encontraram de clamar por amor, respeito, justiça, liberdade e, porque não, de desafiar a brutalidade a que são submetidas não só por maridos em um casamento de subserviência, pais, irmãos e por elas próprias, quando só lhes resta o autoflagelo na tentativa do suicídio, último recurso de libertação.

A seguir, os landays divulgados pelo artigo de Elizabeth Rubin.

“Um marido pashtum, não raro, ou é uma criança ou um velho, imposto pelos laços tribais:”

Você aí de barba branca não tem vergonha,
Não?/ Enquanto você acaricia meus cabelos,
dou minhas risadas em silêncio.

“Uma mulher zomba da virilidade do marido:”

Hoje, durante o combate, meu amante
deu as costas ao inimigo./ tenho vergonha de
tê-lo beijado ontem à noite.

“Ou verbaliza seu desejo frustrado:”

Vem, meu amado, vem pra perto de mim,
O “pavoroso” dorme, pode me beijar agora.

Poesia do “berço à cova”, uma “rebelião velada” feita por mulheres com dedos sujos de tinta sob suas burkas, mas poderiam portar o hijab, turbantes, sáris, rousari, o véu de renda na missa de domingo, ou uma fantasia de porta-bandeira.
Suicídio e Canção como formas únicas de expressar a angústia. 


Foto: Meninas: Emílio Morinatti 

                               Foto: Mulher ou Lixo? (Google imagens)

     
                                                               Emilio Morinatti - Caixa Forum - Barcelona-ES 





quarta-feira, 8 de junho de 2011

ROÇAS E CEREJAS (aos amigos loucos e santos)

                                São Luiz do Paraitinga-SP/BR- Enéas Macedo

                                      Mompeo-IT- Orietta Borgia

Mompeo-IT- Orietta Borgia

                                São Luiz do Paraitinga-SP/BR- Enéas Macedo


“Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
(...) Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero o meu avesso.(...) Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.(...) Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem,mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto: e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo, loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."

Oscar Wilde

SONETO DO AMIGO


Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.


É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.


Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.


O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinicius de Moraes